MORRE ANGELITA HABR-GAMA, A BRASILEIRA QUE REVOLUCIONOU O TRATAMENTO DO CÂNCER DE RETO NO MUNDO
O Brasil e a ciência mundial se despedem de uma de suas maiores referências. Aos 92 anos, morreu Angelita Habr-Gama, médica, pesquisadora, professora e pioneira que revolucionou o tratamento do câncer de reto, mudando protocolos médicos adotados em diversos países e impactando diretamente a vida de milhares de pacientes. E seu legado vai muito além das descobertas científicas.
Nascida em 1933, na Ilha de Marajó, no Pará, filha de imigrantes libaneses, Angelita cresceu em uma família simples, onde o acesso ao conhecimento era valorizado. Ainda jovem decidiu seguir um caminho incomum para as mulheres da época: a Medicina.
A decisão enfrentou resistência até dentro de casa. Seu pai acreditava que ela deveria ser professora, como suas irmãs. Angelita, porém, escolheu desafiar as expectativas. Prestou vestibular e foi aprovada entre os primeiros colocados da Universidade de São Paulo.

O que viria depois seria ainda mais difícil. Quando decidiu seguir carreira na cirurgia, ouviu de um chefe de residência que estava ocupando a vaga de um homem. Disseram que cirurgia não era profissão para mulheres. Disseram que ela deveria desistir.
Passou em primeiro lugar na residência médica e tornou-se a primeira mulher residente em cirurgia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
Anos depois, enfrentaria nova barreira ao tentar se especializar na Inglaterra. O hospital que desejava integrar não aceitava mulheres. Mais uma vez, recusou-se a aceitar o “não” como resposta. Persistiu até ser aceita, tornando-se a primeira mulher a estagiar na instituição.
Essa determinação se transformaria em uma das carreiras mais extraordinárias da medicina contemporânea. Angelita tornou-se a primeira mulher professora titular de cirurgia da Faculdade de Medicina da USP, fundou a disciplina de coloproctologia e conquistou reconhecimento internacional por sua produção científica.
Seu maior legado surgiu a partir de pesquisas iniciadas em 1981. Durante décadas, a cirurgia agressiva era considerada praticamente obrigatória para pacientes com câncer de reto. Angelita questionou esse paradigma. Seus estudos demonstraram que, em determinados casos, pacientes que apresentavam resposta completa à quimiorradioterapia poderiam ser acompanhados cuidadosamente antes de serem submetidos a procedimentos invasivos.
A estratégia, que ficou conhecida mundialmente como “Watch and Wait”, revolucionou a oncologia moderna. O conceito mudou diretrizes internacionais, preservou órgãos, reduziu sequelas e melhorou a qualidade de vida de milhares de pessoas ao redor do planeta.
Por essa contribuição, foi reconhecida entre os cientistas mais influentes do mundo pela Universidade Stanford, integrou sociedades científicas históricas das quais foi a primeira mulher membro honorária e recebeu dezenas de premiações nacionais e internacionais.

Sua produção impressiona: mais de 300 trabalhos científicos publicados, centenas de apresentações em congressos e uma geração inteira de especialistas formados sob sua orientação.
Nem mesmo a Covid-19 conseguiu interromper sua missão. Em 2020, Angelita enfrentou uma das maiores batalhas de sua vida. Foi internada em estado grave, permaneceu intubada por 47 dias e chegou a acreditar que não sobreviveria. Contra todas as expectativas, recuperou-se e voltou ao trabalho pouco tempo depois, demonstrando a mesma força que a acompanhou por toda a trajetória.
Até os últimos anos de vida permaneceu intelectualmente ativa, operando, orientando pesquisadores, formando médicos e contribuindo para o avanço da ciência.
Sua história é a prova de que a coragem de uma única pessoa pode mudar o destino de milhares.
Angelita Habr-Gama não apenas venceu barreiras. Ela derrubou paradigmas.
Não apenas fez história.
Mudou a história.
E continuará salvando vidas mesmo depois de sua partida.